Terça-feira, 30 de Junho de 2009
Adeus da Canção
Não quero saber o que tem feito
Não quero saber das tuas vontades
dos sentimentos
Não quero mais
Quero a morte
a escuridão
Quero o frio e o descaso
Quero você longe
e quero angustia
solidão
e fracasso
Quero tudo errado
Ao contrário
Quero culpa
nunca
ilusão
distância
Quero tudo no lugar
Vou julgar mal e guardar mágoa
Sem pudor, vou guardar rancor
Vou cultivar tristeza e semear isso por ai
Por quê?! Porque não tem razão
Não tem motivo
Não tem sentido
Quarta-feira, 24 de Junho de 2009
A Clarice
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Terça-feira, 2 de Junho de 2009
Passeando pelas metafóricas tribos urbanas
“Já não sinto o gosto,
mas procuro degustar,
me disseram que era bom,
na ‘verdade’
há melhores em seu lugar.
Cadê o pano que sonhei,
ele brilha ao me moldar;
meu antigo pano, hoje opaco,
está num canto a empoeirar.”
Anita Jardim
Imagine um formigueiro, uma assustadora associação de caos e ordem. Metáforas a parte, o cotidiano das grandes metrópoles extrapola os limites da imaginação, saltando aos olhos num realismo cruel e caótico. São cerca de um milhão e cem mil habitantes. Dos quais grande parte vive nas periferias. Moram precariamente, com deficiência em recursos básicas para a vida em uma metrópole. Um contraste permanente para quem chega ao centro da cidade ostentando seu movimentado mercado, e tão logo se depara com os bairros sem calçamento, os ônibus lotados. Contrate que faz da cidade uma perfeita incógnita, semente das incertezas que estão presentes em seus habitantes.
Frente a realidade, nos perguntamos: Guarulhos, uma cidade tão grande e, sem duvidas rica, não tem identidade? Mesmo ainda pairando em nossas mentes essa duvida e com ela o desejo de resposta, com toda a certeza este livro não vai responder esta questão, tão pouco este capitulo. Contudo, basta olhar as periferias, ou mesmo, a aparência estética da maior parte da cidade, para nos fazer refletir sobre o dilema de fazer parte deste ambiente tão pouco confortável.
Guarulhos é sem duvida uma periferia, a margem da “confortável” São Paulo, um lugar esquecida pelo poder, abandonado pela cultura – que não sabe se é rural ou urbano, se é moderna ou arcaica - , desprezada pelas pessoas que aqui vivem, que não se sentem parte de toda pobreza, que não se reconhecem nas ruas sem calçamento, nos terrenos abandonados, na falta de sentir falta, no vazio dessa cidade, que carrega a sina de não ser um lugar, mas é apenas o caminho.
A sombra dessa gigante cidade, estão eles. Nossos protagonista mais importante nessa parte do trabalho. Sempre fugindo de alguém, da vida, do futuro. Como se fossem uma hora culpado, outra hora vítimas. E como na Roma antiga vêem as praças fazer política. Uma política passiva, de quem só aprendeu a olhar para seu próprio umbigo, que por contradição, encontra no coletivo o suporte para a realização de seus anseios. Podem ser chamados das mais diferentes formas, jovens, adolescentes, rebeldes, delinqüentes, contudo, essas classificações não dão conta desse fenômeno social de múltiplas manifestações, ações e sentidos.
Talvez a metáfora das tribos urbanos dê conta desse tipo de grupo social. Metáfora aqui entendida como algo que esta em processo de formação, do qual não é possível categorizar. Da mesma forma podemos descrever os jovens de Guarulhos, como algo que não esta pronto e não características homogêneas, mesmo sendo possível prever, contudo, que não são um grupo permanente. Muitos desses jovens presentes hoje nas praças de Guarulhos desaparecerão daqui a alguns anos, assumindo seus respectivos papeis sociais, e não farão mais parte desse grupo.
Os jovens de Guarulhos são a expressão da latente falta de identidade. São indivíduos na busca de respostas para as indagações da vida, mas não aceitam qualquer resposta. Elas só podem ser dadas pela experiência vivida.
Estão nessa noite de Sexta-feira reunidos aos montes na Praça Tereza Cristina, centro de Guarulhos, frente a tradicional Igreja Católica, a mais antiga da cidade. Com toda certeza não vieram a missa. Com roupas pretas e rasgadas, adereços pelo corpo, brincos, piercing’s, tatuagens, o grupo esta mais próximo, ao olhar desavisado, de um culto satânico do que de católicos praticantes. A maior parte deles são céticos quando o assunto é religião, assim como as gerações dos anos 60 e 70 e o movimento de contra-cultura de quem são inspirados. Em Guarulhos eles são, como em muitos lugares, minoria. Contudo, tratando-se de uma cidade gigante como essa, a reunião desses jovens de aparência pouco comum em um mesmo local atrai a atenção de quem não acostumou-se a velos nesta praça todas as sextas-feiras. É realmente um grupo grande pessoas que a primeira vista parecem fazer parte de uma mesmo tribo. Na verdade essa tribo agrega outras pequenas tribos, ou pequenos grupos que têm preferencia musical diferentes, formando uma confusa fragmentação de jovens que apesar de suas diferenças respeitam-se e convivem dividindo as mesmas praças com quem busca proteção, percebendo no outro uma certa familiaridade. Em meio a eles não vemos brigas, nem violência, algo que é esperado por muitos de jovens de aparência rebelde como esses.
A cidade não tem muito espaço para a manifestação desses jovens; mesmo com seus diversos anfiteatros, casas de cultura, bibliotecas, algumas salas de cinema, etc. Toda a estrutura oferecida pelo Estado não é suficiente para a dimensão da cidade, além de serem iniciativas recentes, em meio a uma população condicionada, que esta desacostumada a criar e apreciar a cultura. Nesse sentido os jovens da cidade não costumam freqüentar a oferta cultural que a cidade oferece. Muitos preferem ir para a cidade de São Paulo, outros não têm mesmo interesse.
Preferem à musica Pop do que a popular, carregando em suas roupas não algo que os identifique ideologicamente como a gerações da contra-cultura que tinham um profundo desejo, mesmo que eloqüente, de mudar o mundo. São apenas nomes de bandas, marcas, clichês que mostram-se completamente vazios de sentido, que não dizem o pensam, o que defendem, são apenas objetos de consumo que os transformam não apenas em consumidores, mas também em mercadorias, fabricadas pela moda, pelas revistas e o pelo mercado cultural.
Na busca de reflexão sobre essa situação, a cerca de dois anos minha grande amiga Anita Jardim, que na época era estudante de jornalismo, escrevia algo providencial que ilustra muito bem esta reportagem sobre os jovens de Guarulhos. Durante o tempo que passaram na academia Anita Jardim e este que vos escreve tiveram grande preocupação com as manifestações de rebeldia de setores da sociedade que expressão criticas a estrutura e a cultura social, associado a um profundo desejo de compreensão da sociedade, sobretudo por esses dois estudantes terem sido parte dessas chamadas tribos, que rebelavam-se aos padrões sociais. Em seu texto Jardim compreendia:
“A identidade cultural está ligada às raízes que cada região tem de maneira particular. Quando há uma comunicação em massa que achata e descarta essas particularidades, elas passam a fazer parte de um passado que não se encaixa mais aos novos hábitos. A universalização cultural descarta os valores regionais e impõem uma cultura na qual não temos mais identidade. Os jovens estão se tornando iguais, parecidos na maneira de falar, previsíveis nos distúrbios comportamentais. São marmanjos mimados pela indústria do consumo. Nas competições juvenis os melhores são os mais alienados, são as cabeças menos pensantes e nessa fábrica de ‘ninguens’, quem pensa é maluco, deslocado de uma ‘verdade’ injetada e instalada na sociedade.
Penso no que essas mentes vazias vão deixar para o futuro e concluo com toda a tragicidade do óbvio que ao invés de deixarem o que são, o nada, estão plantando o caos, suicidando nossos velhos e concretizando a decadência cultural.
Somos massificados, bestificados por máquinas que hoje já não se pode apontar e definir, já que não sabemos mais quem são as máquinas. Somos nós? Seres descartáveis, efêmeros programados pelo imperialismo econômico/cultural. Tão descartáveis quanto as embalagens do mcdonald's e as latas de coca-cola.
Como disse Cazuza: ‘Agora vou cantar para os miseráveis...Para as sementes mal plantadas, que já crescem abortadas...Vamos pedir piedade, pra essa gente careta e covarde...Que estão no mundo e perderam a viagem’.”
Não sei ao certo se Anita Jardim participa da mesmo opinião, ou do mesmo pessimismo nos dias de hoje, quis apenas ilustrar o texto com uma opinião que não fosse minha, que também não é muito otimista, a respeito dos jovens que conheci na cidade de Guarulhos. A verdade é que qualquer relato aqui escrito é por demais superficial e retrato apenas um recorte da realidade. Dessa forma os jovens da cidade de Guarulhos podem parecer com muitos outros de outras cidades do Brasil, ao mesmo tempo pode ser algo extremamente particular ao até mesmo uma percepção precipitada.
Na praça Teraza Cristina conheci Lelo, Willian e Marcelo. Três jovens buscando alguma diversão na cidade. Lelo para de tocar seu violão e simpático conversa sobre o que faziam naquela praça.
– Toda semana estamos aqui, diz ele. E completa – Sempre na Sexta-feira.
Pergunto por que?
– No final de semana a pessoal vai para outros lugares.
Segundo Lelo a cidade não tem nenhum clube, danceteria ou bares que reúnem aqueles jovens. Outras pessoas concordam, dizendo que Guarullhos não tem nada de diversão para os jovens, alguns deles vão para São Paulo no final de semana, outros ficam em casa ou encontram ocupações alternativas, de festa de amigos, reuniões informais, etc. Lelo insiste:
- O lugar que você vai encontrar mais jovens reunidos é aqui, na Sexta-feira.
Wilian e Marcelo falam menos, preocupados com as meninas que passam pela praça o grupo revela por que estão ali sem ter muito o que fazer. A diversão desses jovens, além de flertar com as garotas, é beber, ouvir musica, fumar, distrair-se. Nosso amigo Willian critica Marcelo:
- Como pode cara, você trabalho 12 horas por dia, isso é escravidão.
Marcelo não responde. Com certeza não trabalha por que quer. Willian diz que não quer trabalhar, acha “maluquice”.
Góticos, punk’s, rastafaris, hippies, metaleiros, straight egde’s, stakeitistas. As tribos urbanas de Guarulhos reúnem todo tipo de pessoa, vem para cá aqueles que moram na periferia, os mais pobres, e também jovens de classe média. A maioria deles vai precisar trabalhar, mais cedo ou mais tarde. Devem assumir responsabilidades, abdicando um pouco da diversão, fato que faz desse movimento inconstante.
[acaba aqui, texto de 2003]
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Segunda-feira, 4 de Maio de 2009
Ácido na mamadeira
imagem: .patrícia- Quando nem o silêncio fala, a morfina diz.
- O que está dizendo?
- Fica abraçada a uma papa plástica visceral que observa.
- Que papa?
- O fígado.
- Foi alguma droga?
- Só queria ser um pouco doce com você.
- Quanto tem se esforçado?
- O tanto que merece.
- Vou pegar minhas coisas.
- Antes passa a margarina.
Quinta-feira, 16 de Abril de 2009
Relações mediadas III
Uma lágrima molhou o teclado. Era a milésima vez que soluçava secamente, aprendeu com o tempo a engolir todo tipo de sentimento, não que não sentisse, sentia, mas engolia, como quem tem vergonha do mau feito, ou do direito.
Dessa vez todo sentimento acumulado, não extravasado, parecida que ia implodi-lo. Já fazia duas semanas que tinha terminado o relacionamento, desde então falou poucas vezes com a antiga companheira, sempre duro e controlado, reprimindo a imensa angustia por estar longe de seus braços. Não falava do assunto com a família, dividia a dor com amigos virtuais, pessoas que nunca viu, no entanto desdenhava o próprio sofrimento, suavizava sua desgraça na teclas molhadas da máquina fria.
Passou todo o final de semana sozinho em casa, a família viajava. Trancado num quarto escuro, sua lágrimas rolavam sem sentido. Sentia dor, saudade, vazio, mas apenas para si próprio, e ele não tinha compaixão de si.
O silencio e o barulho das coisas silenciosas o incomodavam. Pensou que naquele dia enlouqueceria. Dias antes trabalhava em algo que o confortava. Era uma carta, longa e cheia de fúria. Eram páginas e mais páginas discorrendo sobre o fim do relacionamento, frases apaixonadas e pedidos de perdão misturados a rancores passados, magoas e acusações. Escreveu tudo num sopro, sem pensar. Vomitou tudo que sentia, sem coerência ou razão. Queria, contudo, seu amor de volta. Pensou que poderia com aquilo desfazer todo o mal entendido. Ainda nos amamos, pensava.
Toda a carta escrita num impulso perdeu-se e meio aos códigos binários fruto de um defeito no computador, essa máquina fria. Não teve amimo para começar tudo de novo, passou até a rever alguns ditos. Achou que aquilo era um tipo de sinal. Era mesmo o fim.
Agora ali, tremendo, temendo a loucura, precisava fazer algo. Sentou frente à máquina e com o mesmo espírito impulsivo que nunca teve colocou-se a escrever.
“Janaina, penso agora na tua voz doce que me parece música. Acho que nunca te disse isso. Sinto falta da sua presença, preciso desesperadamente de você perto de mim. Sei que sente algo por mim e quero tentar ser melhor. Agora sei que te amo. Me liga para nos vermos, caso contrario vou tentar entender seu silêncio. Assinado Sergio.”
Endereçou e clicou “enviar”. Jogou-se na cama e dormiu confortado. Sonhou com o futuro e com a velhice ao lado da amada.
A mensagem nunca chegou ao destino.
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Terça-feira, 14 de Abril de 2009
Você mora mal...
Você mora mal. Não tem móveis, os que têm estão caindo aos pedaços, a geladeira dá choque, o fogão só funciona uma boca, é foda cozinhar assim. Além de ter que fazer primeiro o feijão, depois o arroz, por ultimo a mistura (de vez enquando tem mistura, geralmente é ovo frito), as panelas saem todas pretas, fogo amarelo do caralho.
Dois cômodos. Tudo amontoado, uma zona: prato no chão com resto de comida, copos de extrato de tomate com restinho de café seco. Tudo iluminado por uma lâmpada de 40 watts.
Durmo no chão. Quer dizer, em um colchão bem fininho, doem as costas. Coloco o colchão no chão só à noite, se não não dá pra andar em casa.
A louça ta suja há uma semana, maior preguiça de lavar, mas hoje prometi a mim mesmo que vou fazê-lo, sem falta. Apesar de ter prometido isso ontem, antes de ontem, de ontem, de ontem...
Tive que fazer hora-extra essa semana inteira, só to o pó. Meu patrão me pegou roubando, estou na mão dele: pra não me entregar a polícia ou me mandar embora, me chantageia. Nunca tocou no assunto, a chantagem acontece com os olhares e pedidos, ou melhor, as ordens: “você vai trabalhar até as nove, o Douglas faltou”. Meu horário de sair é às seis. Entendo o recado e obedeço. Fazer o quê? Não posso ser despedido, tem o aluguel pra pagar e a porra da TV de 29. Meu, é ridículo isso, durmo no chão, entretanto, tenho uma TV de 29. Comprei em 12 vezes sem entrada, só paguei uma parcela; faz 5 meses que chega cobrança. Só abri um envelope, os outros tão tudo jogados, no fim faço uma coleção: “Sr. Fulano de Tal, até a presente data, não acusamos o pagamento... Caso o tenha efetuado, favor desconsiderar essa correspondência” Nunca vou pagar, que se fôda!
Apesar das chantagens, meu chefe me presenteou hoje. Me deu uma mochila, ta boa ainda, tem uma alça estranha, tipo um cinto, que passa na cintura; dizem que serve pra ajudar a arrumar a postura. Coloquei o negócio nas costas, passei o cinto e percebi como estou gordo: fiquei igualzinho ao meu colchão amarrado. Ah, de dia eu amarro o colchão, se não não dá pra andar dentro de casa. Às vezes quero pegar uma coisa e o colchão ta no caminho, antes eu ignorava e pisava nele, até que um dia eu tinha pisado na merda e sujei o lençol, não tive coragem de lavar, joguei fora, maior prejô, só tinha três lençóis, joguei um fora, putz, era o melhor...
Nossa estou olhando para mim mesmo de mochila, a cinta aperta minha barriga e as banhas saltam. Preciso fazer exercícios, preciso. Um dia eu faço. Apesar da má impressão, fui embora com a mochila daquele jeito mesmo, vi que tinha um monte de gente olhando, mas não vi ninguém rindo.
To voltando pra casa a pé. Daqui uns 50 minutos chego lá. O foda é que começou a chover, meu óculos ta todo embaçado, uma par de gotinhas tão cobrindo minha visão. Pensei em parar e esperar a chuva cessar, mas fui embora. Qual é a diferença? Se molhar na merda que estou, não é nada, quem sabe não lavo a alma. Se não lavar a alma, o corpo vai ensopar. Mas ta bom é assim mesmo... O ruim é que comecei a espirrar pra cacete. Amanhã roubo meu chefe de novo, daí volto de buzão.
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Terça-feira, 7 de Abril de 2009
Boa noite, reparos
imagem: da internet, com modificações (que feio...)Estranhos se conjugam num gole atômico de passado para que enfrentem a força líquida guardada em seus estômagos. Unindo a roupagem amena das noites de qualquer dia, se transformam em puros gatos pardos, alimentados pela ficção extrema da estreia falida dos próximos medos. É caso de vida, de morte, de queijo Minas derretido, com presunto e pão de fôrma. Enfim, a manutenção de uma desculpa manca que limpa a cidade, o Estado, os estados de euforia e felicidade pendurados na conta contabilizam bons reparos no corpo e nos medos.
Os medos, regados à inverdades corretas – certezas imprecisas – absorvem o rogo feito pelos olhos à noite para que o fígado trabalhe em intenção de despistar o sono. Só para ficarem com os medos, juntos, num coro alto de ladainhas desfavorecidas encantadas, que acreditarão até o amanhecer.
Então, não mais que então, surgem outros velhos medos a tapar astros da infelicidade na cidade pequena, no Estado impuro, nos estados de condenação à liberdade.
Sartre está morto.
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Sexta-feira, 13 de Março de 2009
Desencontros que foram
.patrícia
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“Quem era ele” pode ser a mania de disparidade para o que ele vem sendo. Ele não vem hoje.
Soube que sua vida se tornou a metáfora que o medo aflora para explicar suas vertígens. O medo é tão insano, tão vulnerável quanto critérios de julgamento sobre o que deve sair no jornal. Sinto falta daquela minha literatura, que era só discrepância pessoal, metidez, terapia. Mas que era nítida, um começo de possibilidades sem fim de finais, aos que tinham mesma ausência de grau que eu - não enxergávamos as mesmas coisas. Ele sente falta de mim.
Mas agora já foi.
Quando bate às 4 horas, todos os outros demais presos deixam suas filhas, seus filhos, suas mulheres, apenas para voltar a suas celas e esperar mais uma semana, olhando a parede, esperando pela oportunidade de ver a família outra vez.
Às 4 horas, ainda estou sentado, olhando para o relógio na parede, os próprios guardas olham para nosso seleto e pequeno grupo, balançando a cabeça em um tom de negação e sinto, no fundo. De consolação, entrego o baralho. Os outros três detentos que não tem familia se retiram para suas celas, e ficam olhando para a parede. Apenas esperando, uma semana, sem dizer nada, sem sair da cela com o sonho infantil de que alguém virá na próxima semana. Seus filhos, sua mulher, e até seus pais.
Mas, no fundo, todos querem apenas mais uma partida de baralho.
Eu passo todo esse tempo lendo o que me trazem da biblioteca, sempre rezando (todas as semanas), para me entregarem algo que não seja mais um manual de contabilidade, ou algum livro didático sobre matemática aplicada. Passamos a maior parte do dia em nossas celas, sem nos comunicar, saindo apenas de manhã para exercitar, e praticar algum esporte. O resto do tempo é apenas armaguriante espera que, com sorte, vai durar mais alguns anos.
Um dia conheci um preso que passava a maior parte do tempo pintando desenhos em sua parede, apenas com uma tinta vermelha que ele tirava do uniforme. Tive a oportunidade de checar as pequenas obras primas de meu camarada, antes dele ser mandado para a forca. Eram desenhos de tamanho médio, dragões e outros bichos mitológicos, indentifiquei até o que seria a baba yaga na parede fumando um cachimbo e montada em um almofariz. Temendo fitar os descontentes olhos da senhora, ouvi apenas o sussurro vindo de sua boca sem dentes, no qual eu apenas podia entender.

