sábado, 21 de abril de 2012

na cabeça do tempo - 2




Clarícias

Clarice e eu somos a favor do medo
andamos nas calçadas pelo lado de dentro
mas tu e eu temos muito tempo
e a pela abandonada ao lençol..

eu uso o teu beijo no meu ombro esquerdo
saudades do meu bem que não sabe usar meias
os teus nos meus e minhas, na selvageria...

RESPIRAR ESPERAR VOCÊ DÁ FOME
UM 38 NA CABEÇA DO TEMPO
CASO OS RELÓGIOS SE ATRASEM

Camas e vidas bagunçadas e a pela abandonada ao lençol
saudades do meu bem que não sabe usar meias
saudades do meu bem..

RESPIRAR ESPERAR VOCÊ DÁ FOME
UM 38 NA CABEÇA DO TEMPO
CASO OS RELÓGIOS SE ATRASEM
E O SÁBADO NÃO CHEGUE LOGO
COM VOCÊ...

Música Renata: Swoboda e Patrícia Galelli

Para quem quiser ouvir mais Renata Swoboda: www.renataswoboda.com

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Mãos para ver - ou como desenhar o invisível

Em novembro do ano passado, escrevi uma reportagem sobre a pesquisa da ilustradora Márcia Cardeal para o jornal de cultura Ô CATARINA!, da Fundação Catarinense de Cultura (FCC). A pesquisa virou uma mostra que ainda circula por Santa Catarina.

Agora consegui as páginas em JPG e resolvi compartilhar aqui com todos que não tiveram acesso ao impresso.

Vale a pena conferir!
Espero que fiquem tão encantados com este trabalho como eu fiquei.
















Edição: Dennis Radünz
Diagramação: Ayrton Cruz
Revisão: Denise Gonzaga


quinta-feira, 5 de abril de 2012

Adoniran

por: Mario Rui Feliciani

Antes de mais nada, é um dos maiores letristas da Música Popular, o que no Brasil não quer dizer pouco.

Mas algumas análises sobre a obra do Rubinato incomodam.

Identificar Édipo em "Trem das Onze" é tão tolo, que basta dizer isso. "Trem das Onze" é uma das canções que mais brasileiros sabem de cor. Em qualquer lugar que você esteja, todo mundo canta. Ara, quem não  tem momentos de amor prejudicados pelas obrigações do dia-a-dia?

Há outra análise, menos estreita, que também não compartilho: de que há legalismo no Adoniran.

O conformismo que às vezes vemos nos muitos personagens que ele cria não é legalismo, mas um certo realismo. Assim como o desprovido tem que se conformar com o raio que cai na sua casa em noite de tempestade, ele também se conforma com a pata cruel do estado e da sociedade que derruba seu barraco.

"oh oh oh oh oh meu senhor / é uma ordem superior" (*)

A relativização do direito de propriedade é recente e ainda insuficiente. A injustiça da ordem superior, baseada em conceito estreito de propriedade, é raio estatal que destrói a vida do desprovido.

Na definitiva "Saudosa Maloca", esse realismo é mostrado pela composição dos três personagens. Nela sim tem um legalista, simplista, "os home ta com a razão"; mas tem também um revolucionário, que quer gritar; e um religioso, que é a última palavra, "Deus dá o frio conforme o cobertor". E, nessa última palavra de fé, está a grande construção do realismo do Adoniran: pra maioria dos ferrados a religião é só o que resta.

João Rubinato não faz a música do "dever ser", mas a do "ser". Nos nossos dias, talvez Adoniran contasse sobre os movimentos sociais que existem e obtêm avanços. Seria bom tê-lo hoje como compositor.

(**)

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(*) Despejo na favela

(**) João Rubinato é o nome de Adoniran Barbosa. Uso pra evitar a repetição, truque estreito de escrevinhador barato.

domingo, 25 de março de 2012

na cabeça do tempo



(das coisas que tenho escrito: uma letra musicada por Renata Swoboda, que a intitulou 'clarícias'.
das coisas que tenho visto: um lustre que fotografei numa pousadinha em São Francisco do Sul-SC.
das coisas que tenho sentido: saudades de davi e rômulo, esses mecãnicos de guarda-chuva.)



Clarice e eu somos a favor do medo
andamos pelo 'lado de dentro das calçadas'
você e eu esperamos muito tempo
guaraná no chão do hotel, camas e vidas bagunçadas
e a pele abandonada ao lençol


saudades do meu bem
que não sabe usar meias


na chuva, na linha do ônibus errado
os teus nos meus e nas minhas
na chuva, na linha do ônibus errado


respirar, esperar você dá fome
um 38 na cabeça do tempo
caso os relógios atrasem


respirar, esperar você dá fome
um 38 na cabeça do tempo
caso os relógios atrasem
e o sábado não chegue logo
com você.

(Patrícia Galelli)

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Mentira


Era um sábado ensolarado. Mas não tinham muitas pessoas naquela praça, as poucas presentes não chamavam atenção. No entanto, não era o silêncio que imperava, era um barulho gostoso de preguiça.


Fiquei ali meio paralisado. Tentava entender o que tinha acontecido, tinha tudo, toda beleza, mas não estava satisfeito, não fazia sentido. Trazia comigo uma marca no peito, algo guardado por muitas gerações, era como uma chaga, um defeito grave.


Tentava esquecer, olhando para as folhas, pra terra, para tudo que é imperfeito. Busca esquecer o que tinha sido. O vento fraco batia na árvore e o sol parecia brilhar mais forte, cegando os olhos. Eu me via correndo entre as folhas secas, como uma criança ilustrada, com uma energia que nunca tive. Corria até perde-me de vista.


Sento no banco com o coração disparado, suo frio e o sol já não me aquece. Sinto um dor leve que vem de dentro pra fora. Já faz tempo que ela esta ai, eu sei, há muitas gerações. Ela vai ficar ai até que eu me esqueça dela, foi assim em outros tempos. Meu rosto enrugado não me deixa mentir. Olho para os lados e vejo, ainda com as vistas embaçadas, eu mesmo sentado em cada conjunto de bancos ao longo da imensa praça. Cada um deles têm um de mim, sentado, chorando.


Penso ser minha a culpa. Acreditei em um ser humano puro e livre dos pesadelos da desonra, guiado por seus sonhos e por suas virtudes, mas acabei matando a todos esses velhos sentados ao meu redor. Sou cúmplice dessa fantasia e carrego comigo a mágoa de querer para esses velhos flácidos o que eu não sou.

(música)
Abra sua mão e mexa forte o seu cabelo
Sinta o latido do seu cão
sinta
é você

Pesa essa dor de nunca ter sido alguém
para ela, você só é mais um passando
você passou, já foi, é esquecimento
Sinta você, nunca foi ninguém
sinta o seu cão
seu cão explode
é você!

[Arranjo de Rômulo Brosco]

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Carta aos leitores






de Ana Cristina Cesar.






Nem mesmo a literatura é capaz de suster tanta
paixão que faz vibrar o leito e o seio e os
recônditos lugares a dizer: eu, eu, eu ou outro
nome qualquer que me arraste úmida
menstruada e inutilmente repetindo as
esquivas figuras da véspera. Mais uma
vez me reclino bêbada sobre os teus
órgãos delicados. As palavras escorrem
como líquidos lubrificando as passagens
ressentidas. Murmúrios sofridos: nunca
te senti tão longe, nunca gritei assim por
ti, nunca o teu corpo coube assim no
meu. Murmuro nome e corpos e
conheço a tristeza deste erotismo
abandonado entre as sequelas de uma
rede. Rabisco meus órgãos, recupero a
fêmea entre sílabas, o varão
despido do varonil apreço mas
não verto tua presença
menstruo tua presença
ao fim do dia. Que
este sangue recubra o
doce álcool que me
distrai. Pérfida esqueço
teus gracejos. Mas qual.
Estes passos ainda percorrem
minha espinha, mesmo que
virgem te aguarde semi
aberta.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Na parede da lata vazia de cerveja

imagem: .patrícia galelli


Quando volto, mal suporto o corpo. Deito calmamente na cama, sentindo as dores na coluna. O container de papeis lidos, cheio das bocas falastronas, de restos de peles sobre a minha, aperto de mão, beijo de oi, abraço de ai que saudade. Não sou tipo de gente que desanima, mas o estômago ronca como motor de moto antiga reinando para aquecer e os pulmões desassossegam, preguiçosos para compromissos vitais – é quando duas balas de festim atravessam artérias e o coração cala a boca oras sim. Oras.
Penso que beber cerveja é perda de tempo e de. Penso que é só perda de tempo, e que o ganho não é a verdade que sai ou a que entra, mas a verdade que existe no instante, só. E depois passa. Verdades sempre passam.
Cinco latas de cerveja descansam ao lado do guarda-roupa. Esperam a hora da morte. O ápice da existência são os minutinhos que antecedem a morte – vou assassiná-las daqui a sete e despudoradamente jogarei seus corpos de alumínio numa sacola de supermercado, e intencionalmente as abandonarei em frente a minha casa. Penso que mais próximo local do crime, menor suspeita.
Cinco latas de cerveja estão vazias e vão morrer. Só cinco, são o suficiente para as memórias que irão grudadas à ausência de seus interiores. Só isso. Só.
Cinco é um número que não gosto. É por isso que o assassinato não me comove muito. A vida das latas vazias de cerveja é assim mesmo. No carnaval elas são dizimadas, usadas e depois pisadas, depois não têm enterro nem nada. As gentes desatentas da felicidade que bebem só carregam as memórias do que viveram porque esquecem de grudá-las dentro do vazio das latinhas. Memórias são coisas que não se guarda, li no “Vazio da Existência”.
E depois da ressaquinha de nada, tudo continua como se nada nada nada tivesse acontecido. Não lembro de nada. Do que mesmo eu estava falando?