sábado, 17 de outubro de 2009

Posso pensar nos credos, nos medos
Posso me libertar de você
Sem me condenar por não ser
O que eu tenho que ser
Livre vivo melhor
Percebo os sentidos
Tato, ato
obscuro, claro, escuro, nebuloso
Ouço, sinto
Não me vejo, percebo
Me angustio, te odeio
Me acolhe, te anseio
Domingo sem molho
TV sem retorno
Toco, sinto
Fujo
Transcendo ao ato, ao tato.


Por: Anita Jardim

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terça-feira, 6 de outubro de 2009

De volta para o ventre

Estou flertando com uma grávida. Ela é muito bonita. Olhos negríssimos, pele morena, cabelos longos e enrolados, estatura mediana, sardas no rosto, bunda grande. É estranho. Mesmo conhecidos meus, que são meio degenerados sexuais me condenaram: “se liga ô, a mina tá grávida”. É verdade, ela está grávida, mas não tem uma aureola na cabeça nem asinhas de anjo, mesmo se tivesse, se fizesse o meu tipo...Falo assim mas de vez em quando penso sobre isso, “será que é mancada?”, e o “marido/pai (do filho) dela?”, mas aí lembro, “foda-se, cobiço todas as mulheres, porque não cobiçaria uma grávida?”. O mesmo vale para as deficientes, se fizerem o meu tipo, me atrair por elas...por que não? Lembrei de uma tirinha do Allan Sieber que mostra como as mulheres mancas ou pernetas tem bunda grande. Concordo. “Que sórdido”, alguém pode pensar. Sordidez é sentir pena, isso sim. A compaixão na maioria dos casos é subestimação, atestado de impotência do outro.

A grávida faz aquele ar meio triste, olha de soslaio, meio cabisbaixa, sugere um sofrimento. Penso: “será que ela vai ser mais uma mãe solteira?”, “terá sido abandonada?”. “Ai ai ai, e se ela estiver procurando um pai pro filhinho desamparado dela?”. Sai fora, só quero dar uma boa transada e ainda sem preocupação com gravidez. Machista? Negativo! Sexista pode até ser.

Jamais assumiria aquele filho, nunca! Não tenho aquele romantismo paterno que impõe que filho tem que sair do meu esperma. Não teria nada contra casar com uma mulher que já é mãe e assumir seus filhos. Morei junto com uma prostituta por dois anos, cuidava dos meninos enquanto ela trabalhava, mas ela me decepcionou tanto ao se envolver afetivamente com um cliente que me senti traído: “transar com eles tudo bem, mas amá-los é sacanagem”.Até hoje não me recuperei, amava aquela quenga, éramos muito felizes. Eu cuidava da casa e das crianças, fazia comida (enquanto ela era comida), lavava as roupas, fazia compra. Maldita, se apaixonou por um cliente, parou de cobrar dele até. Como percebi? Ora, ela jurava de pés juntos que não gozava no trabalho (por mais que o trabalho dela fosse gozado e que gozassem dela e nela). Sempre voltava infeliz, de repente passou a chegar em casa pulando de alegria, ficou fria comigo sexualmente, já que dizia que comigo “fazia amor, no trabalho fazia sexo”, por mais que eu nunca tenha separado as duas coisas, porque o amor já estava feito, não precisava fazer, ainda mais com solavancos e penetração genital. Ela deu uma mancada incrível, recebi uma mensagem: 12/03/07 16:27 “negro de 1,90 m, abdome de tanquinho, braços e pernas torneadas e uma pegada incrível, como nunca senti. Hálito gostoso, pau enorme, gentil,rico e apaixonado. Acho que estou amando” Jó .Sem querer, mandou essa mensagem no meu celular, queria ter enviado para a Jô, uma puta amiga dela, mas empolgada com o negro, mandou pra mim, Jó, puto com a situação. Corno, traído pelo coração de uma meretriz. A conheci em trabalho. Me prestou serviços muito interessantes, como aqueles anunciados nos orelhões: “ Bruninha tesuda. 2X tudo. Anal giratório”. “Carol molhadinha. Ninfeta. Garganta profunda. Seios fartos. Bunda grande...”.

Ela morava com uma mulher. Eram casadas moralmente. O pai dos filhos dela abandonou-a (grávida) e a amiga instalou-se em sua casa. A grana era curta. Começou a prostituir-se, gostou. Ganhou dinheiro, me conheceu, expulsou a namorada, passei a morar com ela, dois anos depois...

Pode ser que carregue um trauma e esteja descontando minhas frustrações na grávida que pega o trem comigo, mas não assumiria o filho dela (e se de for gêmeos, trigêmeos...). Não me recompus ainda, acho que jamais vou esquecer a “cadela no cio”(apelido carinhoso).

Fico tergiversando sobre a condição de gestante dela, de certa forma até subestimando-a, mas de repente ela é uma devassa da melhor espécie que quando trepa fica tão alucinada que parece ter cheirado pó. O problema seriam as posições. Teria que ser só de costas. Isso não é nada, o problema seria o colostro, imagina eu chupando aqueles seios e vazando aquela secreção. Dizem que é vitamina, que faz muito bem pra saúde, do neném...

Ah grávida! Acho que estou me apaixonando por você. Faz tempo que não te vejo, acho que deve ter dado a luz e estar de de licença maternidade, estou com saudades. Espero que seu filho tenha saúde, que seja feliz...

Esses dias eu a vi. Estava feliz, sorria abraçada com um cara que eu conheço de vista, frequentador assíduo na Casa Roxa, Casa Amarela, Panelas Drink's e outros antros masculinos (nem tão masculinos assim) da minha cidade. Quando vi a grávida (ou melhor, ex-grávida) senti uma melancolia intensa, quase chorei. Tive vontade de lhe contar que tenho câncer e estou morrendo, que não tenho ninguém, que minha mãe está morta, que estou louco pra dar uma transada, que queria que tivessem compaixão por mim, que sou impotente, que tudo bem se ela me achasse incapaz, desde que eu pudesse deitar em seu colo macio de mãe e sentir a flacidez deliciosa de sua pele materna, desde que me desse um pouco de carinho e claro, muito sexo. Desde que ela me assumisse como seu filho e praticasse muito incesto comigo.

Por: Wagner Pereira de Almeida

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segunda-feira, 21 de setembro de 2009

bem-vinda à luz


imagem: .patrícia
.
estão esperando que eu confesse. então vou contar como foi.
o suspense faz da boca relâmpagos propagadores de besteiras - as energias cósmicas de um arroto vindo do cérebro.
- babe, não queira que eu te explique sobre tua insignificância. vai, me prive disso por hoje - eu falava.
estava no fim, ela não me ouviu. acendeu mais um cigarro, receosa de que o vento viesse torto à emboscada construída pelos seus anticorpos durante a madrugada. o complô funcionou, a defesa retraiu, ela gripou. os pulmões fracos amorteceram a respiração, o ar doía no peito uma dor de pertencimento arranjado. eu estava ali do lado o tempo todo, mas ela não via, não ouvia, não. estava frio demais. sei pelo roxo daquela boca seca, arranhada. eu estava ali quando ela tentou beijar uma garota pela última vez. vi seus olhos fecharem-se para sentir o instante que padecia. depois, não falei mais sem ser ouvido. foi quando aquelas pálpebras duras se desencaixaram contornando o brilho infiltrado daqueles olhos mortos.
- bem-vinda à luz.

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quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Dante, a cidade lascada

Houve um acidente. Uma família inteira ficou soterrada por causa do desabamento de algumas casas que deslizaram incrivelmente ladeira a baixo, interrompendo o trânsito, fechando a marginal.

Há três dias, ninguém passa, quer dizer, nenhum carro passa. Os bombeiros numa labuta impressionante não arredam o pé do local: guindastes, tratores, pás e braços tentam como podem remover os escombros. É possível ouvir vozes, alguém se comunica, na verdade suplica pedindo ajuda.

----- Socorro! Meu filho, meu filho – Bradava alguém embaixo da terra.

Aquela rodovia é a única a dar acesso pra quem sai ou entra na cidade de Dante. A fila de caminhões é entrecortada pelos curiosos à pé que, atônitos, ouvem os gritos de desespero dos soterrados. Cidade do interior é assim mesmo, qualquer coisa que interrompa a calmaria e quebre a rotina, atrai todo mundo. Tem gente até vendendo pipoca, capa de chuva, guarda-chuva...

A principal atividade financeira de Dante é a venda de peixes, que inclusive estão esgotando-se devido a pesca industrial. Por muito tempo os habitantes viveram de maneira sustentável, sem causar grandes danos à natureza, viviam da pesca, comercializavam entre si. Todavia, o Cará, principal pescado daquela região estava praticamente extinto das águas brasileiras, o que fez muita gente voltar seus olhos gananciosos para a cidadezinha. A lei do mercado nunca se fez tão presente, a 'oferta e a procura' gritavam alto nos ouvidos daquela gente pobre: o peixe, em falta, ou seja, caríssimo, já não podia ser consumido por muitos que nasceram ali e praticamente morrerão ali também, assim como seus pais e avós, que a vida toda tiveram fartura de peixes, graças ao rio Amálgama que, surpreendentemente, permaneceu por muito tempo, limpo.

----- Me tirem daqui... minha casa, o que vai ser de mim?! - Resmungava alguém, já sem forças no meio da terra, da lama e do cimento fundidos como uma grande massa de bolo, cujo recheio era um casal e três filhos.

O Cará transformara-se em ouro. Quem degustava era apenas gente da elite que, outrora, saciava sua necessidade de ter status, com caviar. Por conta disso, a mídia passou a devotar tamanha importância ao prato ao ponto de o 'Jornal Nacional' fazer uma série de reportagens com duração de uma semana sobre a extinção do peixe com uma mensagem ambígua dizendo tanto pra preservar como para consumir cada vez mais. Na novela das oito, o personagem mais pobre reunia a família dizendo: “oi filhinha, adivinha o que o papai trouxe hoje...”, “o que papai?”, “Cará”... “Êbá”. A rica empresária aceitava o convite do galã que a convidava para um jantar. Na mesa do restaurante chique, a latinha dourada do 'Cara 'lho', sucesso nacional, peixe na conserva de alho. No 'Globo Repórter' o enfoque da reportagem era os benefícios que o bicho das águas trazia para os seres humanos, Omega três e tal. Empresas passaram a produzir camisetas escritas: 'eu, amo Cará'. Carros desfilavam com adesivos com desenhos de coração com cara de peixe, em alusão ao ilustríssimo animal. Aos poucos surgiu uma indústria com os derivados de produtos relacionados ao Cará. Se continuar assim, daqui a pouco tem 'neguinho' vendendo escama como medicamento.

----- “Equipes de bombeiros de várias cidades se movem em solidariedade à população dantesca...” - conta a repórter loira da televisão local. No 'SP TV', o âncora noticia – pela décima vez – o infortúnio dos heróis: ----- “Dante, a cidade do Cará, como ficou conhecida, ainda está isolada devido ao deslizamento que deixou cinqüenta e nove feridos e três mortos. Uma família ainda está embaixo dos escombros”...

Nunca em seus 335 anos de história Dante fora tão presente nos noticiários: ----- “o Brasil se comove com o drama dos dantescos”... “A defesa civil declarou estado de calamidade pública”...

“Autoridades se reúnem para discutir o problema de Dante”... “O comércio soma prejuízos de 30% em relação ao mesmo período do ano passado”... “Duas toneladas de Cará são perdidas em caminhões parados na estrada interrompida”... Essas eram matérias dos jornais impressos que, como pautas escolhiam aquilo que a televisão cobria.

Em reunião extraordinária entre o prefeito de Dante, o governador do estado e os principais empresários da 'pesque-cultura' houve um consenso: estamos perdendo dinheiro! O pensamento deles era simples: os tratores têm que remover os escombros logo, ainda que passem por cima das pessoas que estão soterradas. Para isso, chamaram um importante político e empresário do ramo de comunicação.

----- É o seguinte, aquela estrada já era pra ter sido desobstruída, estamos perdendo muito dinheiro, os empresários estão indo à falência... - disse o prefeito.

----- Sim, e o que eu tenho a ver com isso? - respondeu o político.

----- Joãozinho, não se faça de tolo, isso eu sei que você não é – estudamos juntos, lembro de como você era esperto - intrometeu-se o presidente da Cará & O.Brasil.

----- Juro que não entendi – ironizou o rei da comunicação.

----- Vou ter que desenhar? - interrompeu o governador.

Sem paciência, e suando frio por estar sendo assassinado com olhos pelos empresários, o prefeito explicou:

----- Quero que use seu jornal, seu canal de T.V., e suas estações de rádio para fazer uma campanha que justifique a remoção dos escombros pelos tratores...

----- Você está insinuando que vai passar por cima daquela família – disse isso com uma voz de choro que dava pena – aquela família que o Brasil todo acompanha pela televisão? Vocês estão malucos!

----- Calma, vamos negociar - disse o governador com fúria.

Concomitantemente, os bombeiros trabalhavam delicadamente, retirando com a ajuda dos moradores as pedras, com as mãos. A pessoa que pedia ajuda, agora só resmungava emitindo grunhidos de dor, falando quase que imperceptivelmente os nomes de seus filhos. Mesmo com a ajuda de uma multidão comovida com o caso, mesmo com a retirada do pai e de uma das filhas, já sem vida, o resgate ainda iria demorar ao menos dois dias, pois a chuva não cessava e os deslizamentos continuavam.

Nunca houvera uma catástrofe de tamanha dimensão em Dante. Alguns populares atribuam o desabamento às obras feitas no topo do morro, trazendo o progresso para a cidadezinha.

Sorvendo um wisk caríssimo, o governador propõe: ----- Te dou a concessão do canal de T.V por mais 30 anos. Faço todo mundo aprovar.

----- E eu perdôo a dívida que tem com nosso município – completou o prefeito.

Algumas horas depois a estrada estava livre. Nas estações rádio local e de maior abrangência, bem como em rede nacional televisiva, o prefeito e o governador revezavam para dar um pronunciamento oficial acerca do Ocorrido em Dante:

“É com muita dor no coração que vimos em rede nacional dividir com o povo brasileiro a angústia diante da tragédia de Dante... A cidade está de luto oficial por três dias... As autoridades fizeram o que puderam... Os bombeiros estão de parabéns...”

O funeral dos dois corpos resgatados inteiros – os outros foram triturados pela ação dos tratores – foi acompanhado por uma multidão imensa, que rezava o pai nosso e cantava louvores a Ele, o protetor dos pobres e miseráveis.

Alguns dias depois as pessoas se revezavam nos comentários sobre a tragédia. Ontem o que nutriu suas opiniões foi um “debate” entre um especialista em remoção de escombros, um “bomberói” - como ficou conhecido um bombeiro que participou da operação do início ao fim, (sendo o primeiro a chegar e o último a sair), um economista e um parente da mãe que gritava pedindo ajuda. O economista detalhava taxas de juros, números e estatísticas que ninguém entendia dizendo que as pessoas no geral perderam menos com a morte daquela família, uma vez que se a rodovia não fosse desobstruída, mais gente sofreria, pois o tanto de mercadorias que transita por aquela estrada é convertida em impostos para o município e na construção de novas casas. Sem contar nos turistas que deixaram de visitar Dante nesses dias, no trabalho que foi interrompido, naquelas pessoas que – infelizmente, sobrevivem dos restos do Cará que não chegava aos mercados.

Tecnicamente o especialista em escombros elogiava a ação das autoridades atestando que não houve equívocos na atuação dos responsáveis pela operação. O bombeiro, emocionado, comovia a todos dando relato de seu esforço e de como era difícil ouvir aquela voz. Dizia ainda para as pessoas não construírem casas no alto dos morros “é muito perigoso”. O parente, coitado, não tinha espaço para falar e não se sentia a vontade no meio das câmeras.


Por: Wagner Pereira de Almeida (Covero)

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sexta-feira, 14 de agosto de 2009

A peste escarlate



[...] A principio, quando só alguns desses germes entravam no corpo, o individuo não se dava conta. Mas cada germe se partia ao meio e virava dois, e fazia isso com tanta rapidez que, num intervalo curto de tempo havia milhões no organismo. Então o homem se encontrava enfermo. Sofria de uma doença e essa doença era batizada de acordo com o tipo de germe. Podia ser sarampo, gripe, febre amarela, ou qualquer um dos milhares de tipos existentes.

Agora, ai está o que é curioso em relação aos germes. Sempre apareciam novos no corpo do homem. Muitíssimo tempo atrás, quando existia pouca gente no mundo, não havia tantas doenças. Mas conforme as populações crescem e os homens passaram a morar mais próximos, em grandes cidades e civilizações, surgiram novas espécies de micróbios. Por isso, vários milhões e bilhões de seres humanos foram mortos. E, quanto mais aglomeradas as pessoas se encontram, mais terríveis eram as novas doenças. Bem antes da minha época, na idade média, teve a peste negra, que assolou a Europa. E assolou a Europa várias vezes. Teve a tuberculose, que aparecia sempre que os homens se encontravam apinhados demais. [...]

Foi no verão de 2013 que apareceu a peste. Eu estava com vinte e sete anos e me lembro bem. Os comunicados feitos por radiotelegrafia.

Parecia sério, mas nós, na Califórnia, como todos os demais, não estamos preocupados. A gente tinha certeza de que os bacteriologistas achariam uma maneira de vencer o novo germe, de mesmo modo como haviam vencido outros no passado. O problema era a rapidez alucinante com que o micróbio desmatava qualquer organismo humano em que penetrasse. Ninguém nunca se recuperava. Antes teve a cólera, em que você podia jantar com um homem sadio à noite, pela manhã, se acordasse cedo o bastante, vê-lo sendo levado pelo carro funerário. Só que nova epidemia era ainda mais rápida, muito mais rápida. A partir dos primeiros sintomas, o homem levava uma hora para morrer. Alguns duravam várias horas. E muitos morriam dez ou quinze minutos após o aparecimento dos sinais. [...]

O coração começava a bater mais rápido e a temperatura do corpo subia. Então vinha a erupção escarlate, espalhando-se a todo vapor. A maioria das pessoas não notava o aumento da temperatura nem a taquicardia e só se dava conta da doença quando a erupção escarlate sobrevinha. Em geral, sofriam convulsões na hora a erupção. Mas as convulsões não duravam muito e também não eram violentas demais. Quem sobrevivia a elas ficava então perfeitamente sereno e só notava uma insensibilidade subir com rapidez a partir dos pés. Primeiro, os calcanhares ficavam entorpecidos, depois as pernas, os quadris e, quando a insensibilidade atingia o coração, o doente morria. Não dormia nem delirava. A mente sempre se matinha tranqüila até o momento em que o coração parava. Outro fato curioso era a rapidez da decomposição. Tão logo a pessoa morria, o corpo parecia cair aos pedaços, reduzir-se ao pó, despencar a olhos vistos. Essa for uma das razões de a peste se espalhar com tamanha velocidade. Todos os bilhões de germe no cadáver se viam, assim, imediatamente livres. [...]

Jack London em “A Peste Escarlate”, 1912.


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quarta-feira, 29 de julho de 2009

Dos que sentem muito

imagem: .patrícia

Três fantasmas sussurram mensagens subliminares que recortam quilômetros de distância. Três monges suspiram a fé amarrados em seus cordões retorcidos. Três crianças descalças vendem sua etnia atrás de cestos de vime colorido. Três telefones roçam a saudade de três alguéns que estão em frente a três outros telefones num canto de três salas pouco iluminadas. Três dias ela pensou no que dizer aos outros dois que já não pintam sequer no seu mundo inventado. Três vezes soou sangue nas artérias dos infelizes que sentem – muito.
Três palavras antes do mundo para...

Aonde

Foi

Todo

Mundo?

...dizer que não há ninguém.

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terça-feira, 30 de junho de 2009

Adeus da Canção

Foi-se embora a razão
Não quero saber o que tem feito
Não quero saber das tuas vontades
dos sentimentos
Não quero mais

Quero a morte
a escuridão
Quero o frio e o descaso
Quero você longe
e quero angustia
solidão
e fracasso

Quero tudo errado
Ao contrário
Quero culpa
nunca
ilusão
distância
Quero tudo no lugar

Vou julgar mal e guardar mágoa
Sem pudor, vou guardar rancor
Vou cultivar tristeza e semear isso por ai
Por quê?! Porque não tem razão
Não tem motivo
Não tem sentido

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quarta-feira, 24 de junho de 2009

A Clarice

Clarice morreu de overdose ontem. Ela não amava ninguém. Ela tinha uma tatuagem que dizia: "caixas de fósforo são valas comuns". Clarice me deixou em nervos. Ela pensou que me amava. E eu tenho uma tatuagem que diz: "spray de garganta brocha". Ela me deixou aqui, sem grana, sem família, sem anéis. Clarice morreu e eu fiquei olhando seu corpo perto do terminal. Eu fiquei querendo fazer uma tatuagem que dissesse: "indigentes morrem a toda hora".

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